Apr 2, 2008

O que faz diferença na hora de decidir onde morar? by Sergio

Tenho recebido pouquissimas críticas em relação a nossa futura ida para o Canadá. Não sei porque mas existem aqueles que nos apoiam fortemente (como toda a "turma" de futuros imigrantes ou nossos médicos) e aqueles que tanto faz como tanto fez (aí acho que entram meus sobrinhos como representates símbolos). Oposição mesmo, de falar que não gosta da idéia, e que sempre se manifesta, é a minha mãe o único exemplo.

As poucas críticas que recebemos (com também a honrosa exceção da minha mãe), no entanto, eu acho muito desfocadas. O pessoal se refere a problemas que estão lá no final da minha lista de preocupações e esquece de coisas muito importantes.

Vou tentar discutir esses aspectos um a um:

- Frio: essa é uma grande barreira, não sei como vamos reagir tendo passado toda a nossa vida em São Paulo, que mesmo nos meses mais frios do inverno, existem dias agradáveis. Mesmo nossa estada em Atlanta, não pode ser comparada. Vamos ver a temperatura de hoje por exemplo, São Paulo 20°C (maravilhoso), Atlanta 13°C (ainda tá bom, vai), Vancouver (-1, dá para se virar) e Calgary (-6, frio a beça). E olha que já estamos falando de primavera no hemisfério norte. Não sei qual será nossa reação.

- Família: para ser muito franco, minha única preocupação é minha mãe. Minha irmã talvez um pouco menos. Isso vai ser problema.

- Língua: sou um assumido "nó cego". Se somar tudo o que eu já estudei de inglês daria para ser um PHD em línguas. Mas as partes do meu cérebro dedicadas ao aprendizado de línguas, ou às ciências humanas devem ter atrofiado pelo peso da matemática, risos. Não é fácil morar em um país em que não se entende tudo o que está acontecendo.

- Nacionalismo: isso pra mim é bobagem. Acho que nesse ponto temos que ser individualistas. Não vou ser um "dom Quixote" atacando os moinhos de vento. Na verdade, sofri um "desalento" em relação ao país. Na época dos militares existia muita esperança de que os nossos problemas eram unicamente provocados pelo governo. Existia também a URSS que era o contraponto dos EUA capitalista, frio, somente ligado ao dinheiro (só depois fomos descobrir que os russos, ou europeus orientais tavam na verdade desesperados para virarem capitalistas!!!). Só que os governos militares cairam, se fizeram acordos e continuamos com um filhote da ditadura, o Sarney. Aí depois de cinco anos de mandato assume outro filhote o Collor, que deu no que sabemos. Finalmente, quase dez anos após caída a ditadura um presidente "popular", uma pessoa comprometida com o combate a ditatura, com as causas sociais, um pensador de esquerda assumiu. E deu no que deu de novo, acordo com as elites, ACM como ministro, etc., etc. Etc. Em São Paulo mesma coisa, governos ditos progressistas por duas décadas, e a mesma estagnação na educação pública, na saúde. Mas existia uma esperança, existiam "caras" que eram contra tudo isso que está aí. Eu mesmo votei no Lula algumas vezes. Só que quando esse pessoal chegou ao poder, fez o mesmo do que seus antecessores, ou até pior. Ao invés de procurarem apoio do conservador DEM, foram atrás dos só não conservadores como fisiologistas do PR, PP, PTB e deu no que deu. Só que a grande diferença é que agora não existe um PT em que a gente possa confiar. E o pior de tudo isso é que o povo brasileiro fechou com essa situação. Resumindo se eu tiver que optar entre o ame-o ou deixe-o vou ficar com o segundo. Pelo menos nestas condições. E tenho direito a querer isso para os meus filhos se tenho certeza que as coisas só vão melhorar para meus netos, se melhorarem.

- Problemas do Brasil. Para conseguir comparar o Brasil com os países do primeiro mundo é preciso morar um tempo lá. E não pode ser como turista. A diferença é gritante. Na verdade a diferença choca. Sair na rua e saber que não tem ninguem te observando, que ninguem vai ligar se voce entrar numa loja com sapato furado, que a filha da faxineira estuda na mesma escola que seu filho, que se o cara passa o limite de velocidade na estrada o guarda pega, que o carro para na faixa, é muita coisa. E por aí vai.

- Segurança pública, estamos em guerra civil e não nos importamos com isso. Iraque, Líbano, Israel, Tibete tão melhores do que a gente. Ano passado morreram 46.000 pessoa por morte violenta. Era o que morria por mes no Vietnã. Isso se os indices não são subavaliados. Não sei como convivemos com isso! Todo mundo conhece alguem que teve alguma história de violência próxima. Veja por exemplo a minha querida sogra, em um tempo super curto, o carro de uma filha foi acertado por uma bala perdida (pelo menos sem ninguem dentro), um sobrinho levou uns tapas dos ladrões e perdeu o celular, o outro ficou de refém dentro de casa por um tempão, o vizinho da rua de cima (e amigo de infancia dos meus sobrinhos) foi assassinado pelos ladrões porque passou um carro da polícia por perto, tentaram linchar uma outra vizinha, e por aí vai. Tem também o genro, no caso eu, que a família teve que esperar por meia hora para saber que ele estava no avião de trás e não no avião que atravessou a pista e ninguém sabe ao certo ainda como que aconteceu uma coisa dessas (violência não é só assalto). Como fica a cabeça de uma pessoa assim?

11 comments:

  1. É por isso que minha resposta sobre o Canadá e todos aqueles que só falam dos problemas que vamos encontrar é sempre uma pergunta: "Como você tem coragem de ainda ficar aqui?!".

    Tem vezes que me sinto abandonando o barco, mas que adianta lutar sozinha contra um naufrágio? A vida é uma só...

    Beijos,

    K.

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  2. Tb me questiono se não deveria lutar e fazer da minha pátria um lugar melhor, mas é duro remar contra a maré. Cansa não ter emprego, segurança, acesso à saúde pública de qualidade. Cansa muito! Então acho que o melhor a fazer é arrumar as malas mesmo!
    Abraços!

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  3. Olha, sinceramente, por esses e outros motivos que você listou, já não consigo conceber o futuro meu e da minha família aqui. É como se tudo o que tivéssemos pra viver aqui já estivesse se findando pra continuar lá. Vocês também sentem isso?
    A explicação que dou pra isso é que: mesmo ainda estando aqui, vivemos com o coração lá, fazemos parte de tudo o que envolve o Canadá.
    Abraços,
    Gislane

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  4. Olá Sérgio, parabés pelo post. Acho que você vai tirar de letra a língua, o frio e até mesmo o nacionalismo. Quando se almeja um ideal maior, enfrentamos as dificuldades com coragem e determinação, os seus filhos, vão perceber, a imunidade vai aumentar e vida vai seguir seu rumo. Sei que nem tudo são flores, mas eu acho que com o que passamos por aqui, qualquer coisa é "bico".
    Abraços, Eliane.

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  5. Nao acho que vcs estejam abandonando o barco, soh procurando uma vida melhor pra vcs e seus filhos! Os politicos, que sao as pessoas que deveriam pensar no pais, nao o fazem, por que vcs deveriam? Nao estou dizendo que o cidadao nao deve fazer nada por sua cidade, seu pais, mas os politicos sao pagos para isso (e muito)!
    Desculpa o comentario longuissimo...

    bjs

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  6. Olha, eu concordo com vocês dois. Tanto com que você, Sérgio, postou aqui como o que a Marilena comentou no meu blog. Infelizmente não tem mais como pensar em uma vida aqui. isso porque eu não tenho filhos, então fico imaginando a vida de quem tem. Realmente complicado demais...

    Mas a gente tem que pensar que ainda bem que temos essas oportunidades. E pobre das pessoas com a cabeça fechada e um pseudo patriotismo (porque se fossem patriotas, fariam algo pelo país que dizem amar), porque vão continuar a se afudnar nesse mar de lama...

    Também optei pelo "deixe-o".

    Beijos,

    Dani

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  7. Bom, no fim das contas, vcs só vão saber o saldo final quando estiverem morando lá por uns 6 meses, um ano. Aí que dá pra avaliar direito. Eu pessoalmente estou tentando o caminho de volta, feliz da vida. Essa vida de morar fora foi bom por uns tempos, mas agora já tá bom...
    Beijos!

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  8. Frio nao vai ser problema, porque como diz a mae de uma amiga, "nao existe frio, voce eh que esta usando a roupa errada".
    No mais, acho que voces vao tirar essa mudanca toda de letra.

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  9. Frio nao é nada comparado ao fato de teu filhos poderem ir à escola sozinhos,ir à casa dos amigos de ônibus ou de trem,vc poder andar com os vidros do carro abaixados,sem trava. Isso é liberdade e pra isso nao tem tempo ruim nao.
    Minha filha de 10 anos esteve comigo no Brasil depois de 5 anos, e me perguntou como a família conseguia viver num lugar tao cheio de problemas?
    Isso poqrue nós estávamos de férias e o trânsito em Sao Paulo nem estava tao ruim assim em janeiro,
    Dificuldades sempre existem,mas nós somos jovens e agora é a hora de superá-las com mais facilidade,torço muito por vcs,se vcs tivessem idéia do que eu ouvi qdo resolvi fazer as malas e cair fora com 4 filhos nas costas,muitos apostaram que em 1 anos estaríamos de volta,
    Abços,

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  10. Respondendo ao coment no meu blog...

    Isso que me irrita! Pra esse povo "patriota" tudo tá bom, esse país é perfeito e blá blá blá. Os que dizem isso se encaixam em dois fgrupos: os que desconhecem/não têm oportunidade de sair e os que são "bem de vida", e que não precisam de nada que o governo DEVERIA dar em troca de todos os impostos que você paga. E sabe o que é pior? Esses são os primeiros a reclamar de coisas como segurança e bla bla blá.

    Acho que é por isso que quero ir embora logo! Cansei desse país hipócrita, com povo mais hipócrita ainda! E essa de terceiro mandato é o fim! Agora eles fazem o raio do dossiê com gastos pessoais de FHC (como se tudo que todos os outros políticos não gastassem nada pessoalmente...), pra ele se ssair novamente poderoso sobre o outro lá... São essas e outras que me dão raiva....

    Sds,

    Dani

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  11. Bom... Como eu havia dito em outro post, nunca morei fora do Brasil para poder ter uma opinião fechada sobre uma mudança, mas não é algo que eu, em tese, descarte, especialmente porque quero ser mãe e cuidar de filho.

    Adorei a foto de abertura do blog. Linda!

    E O Sérgio tomou conta do blog, né, Marilena, com este verde todo? Mas eu também adoro verde. É minha cor preferida.

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Viagem com a escola

Quando eu era criança, la na Vila Aurora, os nossos passeios de escola eram ate o Horto Florestal... talvez parque do Ibirapuera na formatur...