Dec 2, 2008

E este processo de imigração...


Este processo de imigração não é uma brincadeira como as vezes pode parecer; ele é caro, é demorado e chega um momento em que as nossas emoções ficam em frangalhos. É desgastante demais esperar por algo que vc não tem certeza se vai dar certo, esperar sem uma precisão de quando vai acabar e com regras que podem mudar a qualquer momento.

Mas é interessante pensar em todo o tempo que investimos neste processo e nas pessoas que nos ajudaram em todo este tempo sem nem imaginar. Fico pensando em toda a minha trajetória escolar, em todos os anos de estudo a que me dediquei; os três anos de mestrado, que pode parecer não terem servido pra nada já que parei de trabalhar quando o Eduardo nasceu, mas que nos valeram preciosos pontinhos no questionário do consulado. O doutorado do Sergio, todos os anos de trabalho duro que ele enfrentou, com viagens horrorosas por lugares tenebrosos que só nós sabemos como foram.

E bem lá atrás, quando ainda éramos pequenos, todas as conversas dos nossos pais, todo o incentivo para estudar, para sermos responsáveis, toda orientação em relação a dinheiro que sempre foi curto para os dois, todos os NÃOS que nos ensinaram a lidar com as situações adversas e todo apoio pra não desistirmos dos nossos sonhos no primeiro obstáculo.

Foram tantas pessoas e situações que foram passando por nossas vidas e nos preparando para todas estas emoções contraditórias que vivemos hoje.

No final sempre podemos tirar de toda esta experiência algum aprendizado; entender que ficar parado nem sempre é sinal de comodismo e que em alguns momentos simplesmente temos que parar, respirar fundo e esperar (coisa dificílima pra mim).
Este processo também nos ensina a conhecer as pessoas e nos traz muitas surpresas com elas; nos afasta de umas, nos aproxima de outras, e nos dá uma força muito grande pra aguentar todas as pressões.
E ele é demorado, lento, angustiante, mas atrás desta demora ele nos dá tempo de digerir toda a mudança que vai acontecer. Podemos pensar em todas as possibilidades, em tudo o que pode dar errado, temos tempo pra conhecer o Canadá de trás pra frente, temos tempo de viajar pelas províncias, pelas cidades, ter uma idéia do clima, do mercado de trabalho, das escolas, alimentação, costumes e ir se preparando psicologicamente para o que vamos encontrar por lá.
Temos tempo de nos despedir das coisas daqui, das pessoas, dos lugares, das comidas...

E ainda temos tempo de aprender que imigrar não é pra todos e entender que as reações das pessoas não são para nos prejudicar. Para imigrar é preciso ter um espírito de aventura, uma vontade quase incontrolável de enfrentar o desconhecido; é preciso um desapego e uma paixão que nem todo mundo consegue entender. É se dar uma nova chance, a chance de renascer no local que vc escolheu pra viver e onde vc quer começar uma nova vida.
Muitas pessoas nos chamam de corajosos. Corajosos foram meus avós que chegaram no Brasil no início do século XX com poucas informações e pouquíssimas chances de retornar se as coisas não dessem certo. Nenhum deles jamais voltou à terra natal e as poucas informações que trocavam com parentes de lá eram através de cartas que levavam mais de 3 meses para ir e outros três pra receberem a resposta.
Uma amiga argentina estava contando que quando veio para o Brasil, há 20 anos atrás, sem dinheiro, precisava tirar cópia das cartas que mandava para a mãe porque quando recebia a resposta já não se lembrava o que tinha escrito na carta que havia enviado. Este pessoal sim, teve muita coragem!!!
Pra nós, tudo vai ser bem mais fácil, bem mais simples, bem mais tranquilo. Será que vai ser melhor ou pior que a vida que temos aqui? Será que vamos ser mais felizes lá? Eu não sei. Mas o bonde parou na nossa frente e abriu a porta. Muitas pessoas deixariam que ele fosse embora, mas existe em mim uma força incontrolável que me leva a entrar nele e seguir viagem. Pra minha alegria esta força age sobre meu marido e ele embarcou ao meu lado.

PS: segundo minha amiga argentina: Oportunidade é uma pessoa que só tem cabelo na frente; é careca nas costas. Depois que ela passou vc não consegue mais segurá-la.

12 comments:

  1. Nossa, Marilena, que texto lindo! Eu sinto a mesma coisa que você, só não tinha ainda conseguido colocar em palavras... Vamos sim pegar esse bonde, porque ele pode não passar por nós novamente!

    Beijos,

    Andréa
    www.picolecarioca.com.br

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  2. O processo de imigracao deve ser mesmo angustiante,mesmo porque vc nao sabe ao certo quanto tempo isso levara.
    Bom,te desejo muita sorte e paciencia!
    Tenho um casal de amigos que imigraram para o Canada e sao muito felizes la.

    Adorei a dica do livro,no posting abaixo.Vou dar de presente para uma priminha.

    Bjo
    Tata

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  3. Amiga, tava inspirada? Amei o post, muito emocionante e bem traduzido em palavras.
    Achei que ao final teria a notícia de que os pedidos de exames médicos chegaram, mas sei que falta pouco.
    amos embarcar nesse bonde também.
    Beijos

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  4. Oi MArilena..

    Primeira vez no blog e dei de cara com esse texto incrível.. =]~ As decisões não são fáceis, mas ng disse que seriam, certo..? Que vcs recebam logo o pedido, ng merece o chá de cadeira do consulado! rsrsrs

    Beijos,

    Anne

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  5. Lena, só uma retificação. Aquele lugares tenebrosos, voce pegou meio pesado, rs, rs, rs.
    Realmente no Brasil há lugares onde não há estrutura nenhuma, mas mesmo nas piores condições sempre tem alguém que vai te ajudar. E a "culpa" pelas situações que passei, com certeza não é dos moradores de lá. Nem que seja em um hotel de quinta categoria na Belém-Brasília, rs, rs, rs.
    Mas voltando ao assunto do blog, é por estes posts que eu tenho tanto orgulho de ser seu marido.

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  6. Marilena, tudo na vida tem seu momento certo. E como diz a musica DESESPERAR JAMAIS(Ivan Lins).

    Desesperar jamais
    Aprendemos muito nesses anos
    Afinal de contas não tem cabimento
    Entregar o jogo no primeiro tempo

    Nada de correr da raia
    Nada de morrer na praia
    Nada! Nada! Nada de esquecer

    No balanço de perdas e danos
    Já tivemos muitos desenganos
    Já tivemos muito que chorar
    Mas agora, acho que chegou a hora
    De fazer Valer o dito popular
    Desesperar jamais
    Cutucou por baixo, o de cima cai
    Desesperar jamais
    Cutucou com jeito, não levanta mais


    Por mais que seja desgastante e que o sofrimente seja quase inenarrável,tudo será recompesado com o SIM.
    Nao se afobe.
    Abração e boa sorte.

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  7. primeiro de tudo...
    Que amor esse comentário do Sérgio! Adorei =D
    isos que é marido apaixonado!rs

    Então, sobre o post.
    Pra mim, toda espera é angustiante. Pode ser a espera de um final de semana, ou a espera de uma decisão pra vida inteira. Eu odeio esperar!rs

    Eu sou da opinião que, quando você está certo do que quer, as chances de dar errado são mínimas!

    Bjos,

    Dani.

    PS: ONTEM que vi que você comentou no meu outro blog!rs Meu diário pessoal. ahahaha Pode passar por lá quando quiser ;)

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  8. Oi Lena, parabéns pelo texto, pela cumplicidade do marido querido e acima de tudo parabéns pelo ser-humano fantástico que tu és.
    Beijos carinhosos,
    Eliane.

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  9. OOO paixao e casal MA LINDU GENTI !!!!!!!!! Que texto bom Lenaa !!!! Vc explicou tudo que passa pela nossa cabecae sinceramente eu tambem tenho observado muitas pessoas nesse mesmo pensamento.

    Eu nao costumo jogar oportunidades fora, porem ter coragem e determinacao e o X da questao.

    Vamos todos entao no mesmo bonde porque com certeza as escolhas da vida somos nos que fazemos.

    bjs
    Ninha e Dodo

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  10. Oi Marilena,
    também falam que nós somos corajosos.rs As pessoas me perguntavam como é que eu podia largar tudo. Eu trouxe seis malas, mas mesmo que todas elas tivessem se perdido, eu ainda não teria largado tudo. Eu sempre tive tudo comigo. Meu marido, minha filha e a vontade de viver o novo. É isso que a gente precisa. É claro que foi assustador não saber falar a língua, claro que é terrível não saber as regras, mas também é delicioso ir conhecendo um novo universo cultural e social. Só posso dizer que, para nós, a experiência está valendo muito a pena. Nós estamos muito felizes e, melhor que isso, a nossa filha está muito feliz. Arrisco dizer que muito mais feliz do que era no Brasil. Graças, entre outras coisas, a essa diferença cultural que me fez repensar o tempo em frente à TV, que me fez ver o quanto é importante o brincar e passear ao ar livre, que me libertou para fazer delíciosos pequeniques com a pimpolha. Graças também à cumplicidade maior, já que, juntas, resolvemos todas as questões do dia a dia, seja a pé ou de busão. rs

    Um abraço,
    Carol

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  11. Nossa, Marilena, adorei o post de hoje!!! Mandei o link pra Marido ler também!!
    E eu que tenho os pés no Brasil e o coração no mundo concordo 100% com você!!
    "Porque o mundo é grande demais pra se nascer e morrer no mesmo lugar" Pablo Neruda

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  12. Nossa, Marilena, adorei o post de hoje!!! Mandei o link pra Marido ler também!!
    E eu que tenho os pés no Brasil e o coração no mundo concordo 100% com você!!
    "Porque o mundo é grande demais pra se nascer e morrer no mesmo lugar" Pablo Neruda

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Viagem com a escola

Quando eu era criança, la na Vila Aurora, os nossos passeios de escola eram ate o Horto Florestal... talvez parque do Ibirapuera na formatur...